Artigo: Um conto para reflexão.

A vida como ela acontece hoje: Viviane e o sexo na adolescência.

A história que vou contar é uma das muitas que pretendo transmitir a todos. Ela tem personagens fictícios que se envolvem em situações nada fictícias. Talvez alguém possa reconhecer-se, mas creia: não é intencional. Porém será muito bom, pois mostra que a realidade, com certeza vai muito além da ficção.

Viviane é a nossa primeira personagem fictícia de um caso que pode ser real. Desde que nasceu recebe atenção limitada de seus pais. Sua mãe, uma funcionária de escritório, que desempenha seu papel profissional com grande eficiência, volta para casa sempre cansada e estressada por causa da condução lotada. Pegar metrô no horário de pico é coisa para heróis e heroínas. Seu pai, também um trabalhador da área administrativa vive muito atento às possibilidades de promoção no trabalho e, por isso, constantemente trabalha além do horário de expediente normal. Aos finais de semana, ao invés de dar atenção exclusiva à sua esposa e filha, dedica-se em manter atualizado o seu conhecimento sobre futebol: o campeonato paulista ou o brasileiro e, também, os campeonatos europeus, onde jogam muitos craques nacionais, desde o final do século XX. Prefere realmente ficar diante da TV vendo os jogos.

Viviane, que desde os 5 meses de idade fica na creche particular, aprendeu a virar-se sozinha com sua vida. Ainda bebê, mesmo sendo muito bem cuidada na instituição – escolhida a dedo pela mãe, que investigou muito bem a reputação do local junto a outras mães – sempre se sentiu desamparada e sem privilégios. Ela era mais uma entre tantas crianças que sempre receberam atenção profissional. Carinhosa, mas extremamente limitada e altamente profissional. É, realmente, o que podem fazer os funcionários e funcionárias das creches, sem envolver-se em demasia com uma ou com outra criança. No meio de 20 bebês, ela poderia chorar, espernear e gritar, que nenhum privilégio lhe seria dado. Como filha única, Viviane, em casa, mesmo com a atribulada vida de sua mãe, era exclusiva, embora sentisse a falta de algo que sua pouca idade não lhe permitia discernir.

Foi crescendo, nossa pequena personagem, e, aos 6 anos, foi transferida para a sua primeira escola. Na primeira série, sentiu a diferença em ser tratada com uma indiferença maior que a que já tinha. Era uma em meio a outros 34. Estava cercada de tantas crianças com histórias diferentes. Sentia nelas necessidades e aspirações que às vezes coincidiam com as suas, mas que, geralmente, eram tão estranhas que chegava a sentir-se um monstro ou um objeto: ou ela era totalmente esdrúxula ou completamente ignorada. Mas, como sempre acontecia, tratou de arranjar-se nessa selva. Quando em casa, sua mãe, experiente profissional, atendia às suas necessidades primárias de alimentação, vestuário e um pouco de diversão. A mãe sempre acreditou na máxima: “não é o tempo que passamos com nossos filhos que importa, mas a sua qualidade”. E, portanto, quando arranjava 20 minutos em sua apertada agenda de profissional e dona de casa, fazia um céu para Viviane. Mas ela, a pequena, sempre achou pouco. Ela que, desde bebê, gostava de assistir ao mesmo filme 20 vezes, sempre achando graça e rindo, mesmo já tendo decorado as falas, não ficava satisfeita com os esporádicos 20 minutos da mamãe. No começo fazia bico e ensaiava a manha, que logo era repreendida pela mãe, cansada e ocupada, que dizia: “isso é tudo o que posso lhe dar, ou prefere não ter mais nada?” Com o tempo, percebeu que era melhor ter os poucos minutos sem reclamar, que ficar na saudade. Agora, aos 8 anos, Viviane entendia como a vida era agitada e até entendia sua mãe. Tanta lição na escola, fora a academia de balé, as aulas de inglês e a insistente aula de violão e canto, exigência de seu pai ausente – aquele comentarista amador de futebol – que via nela um talento de Sandy. Acordava cedo e dormia cedo. Sentia um vazio crescendo dentro de si e uma solidão que nem mesmo os colegas de escola e de tantos cursos conseguiam extinguir.

A vida foi passando rápida para Viviane, que se tornava cada vez mais carente a cada dia. Queria atenção. Queria ser alguém especial para quem quer que fosse. Assistia aos programas de TV que mostravam tantas meninas, moças e, principalmente, mulheres atraentes e cheias de atenção e queria ser como elas. Aos poucos foi vendo que havia uma forma de atrair a atenção. A TV aberta e a cabo, os novos filmes que mamãe e papai lhe compraram para ver no DVD e as revistas que comprava na banca com a boa mesada que ganhava, começaram a mostrar um lado meio obscuro para ela, mas satisfatoriamente atraente. Um dia, aos 11 anos, entre o intervalo da escola e da aula de violão, olhou-se no espelho do quarto, vestida. Sentiu um grande prazer em olhar para sua imagem. Resolveu trocar o uniforme da escola por outra roupa com mais cuidado e observando-se sempre. Viu um par de pernas muito bonito, bem torneadas pelo balé. Viu uma cinturinha de moça em seu corpinho de criança e duas protuberâncias no peito que já despontavam como pequenos seios, para os quais a mãe já lhe comprara sutiãs. Percebeu-se bonita. Pegou uma roupa diferente no armário e vestiu. Passou na banca de jornais e comprou algumas revistas femininas e concluiu: sou tão bela quanto elas.

Mas deixemos Viviane quietinha, por enquanto, e vamos dar uma olhada em Albertinho. Garoto mimado, filho caçula, que recebia em troca da falta de atenção dos pais dezenas de mimos e presentes. Podia tudo. “Quero sair” e saia. “Quero comprar” e comprava. “Quero fazer” e fazia. O irmão, 8 anos mais velho, ajudava no mimo. A mãe, secretária bilíngüe, e o pai, executivo de negócios, mantinham-no em uma vida boa. Sem atenção, mas boa. Aprendera que a melhor forma de conseguir alguma coisa era chantageando. Conseguia tudo fazendo-se de vítima ou fazendo escândalo. Realmente, um escândalo de menino. Era tão escandaloso nos seus modos, quanto na sua beleza: Albertinho tinha cara e jeito de modelo.

Aos 13 anos, Viviane conheceu Albertinho. Ela, que descobrira seu corpo aos 11, como já vimos, aprendera a usá-lo para conseguir a atenção das pessoas. Nas roupas assim como na forma de se comportar, Viviane estava conseguindo a admiração e a atenção daqueles que a cercavam. Isso só não funcionava com seus pais, que continuavam tratando-a como menininha que já não era. Aprendera a arte de seduzir nos programas de TV, nos filmes em DVD e na internet. Tinha profile no Orkut, MySpace e Gazzag. Tinha conta no Habbo, mas já não o curtia tanto. Usava MSN e curtia muito ser a July, uma mulher voluptuosa e sensual, no Second Life. Mantinha um blog, o gatinhaesperta.blog.com.br, onde postava, com certa constância, suas idéias sobre relacionamentos. E, minha nossa! Quanta coisa pré-fabricada pelas revistas teens e pelas teorias sobre relacionamento humano de blogueiro! Mas Viviane já era mais uma no meio de tantos, como sempre.

Mas, como dizia, ela conheceu Albertinho e engraçou-se com ele. Claro que já tinha beijado, a Viviane, e, como não podia deixar de ser, sentiu vontade de chamar para si a atenção do garoto, com claras intenções de envolvê-lo. Deu certo. Tão certo que começaram a namorar. Albertinho até estranhou que, pela primeira vez, não precisou fazer tanto esforço para conseguir algo na vida. Nesse caso, a atenção da Viviane. Ela estava tão propensa a ele, que o esforço para conquistá-la foi o mínimo. Agora, andavam sempre juntos. Ela, aos 13,  a menina cheia de charme e sedução. Ele, lindo negociador no relacionamento humano de modos mimados. Cinema, festinhas e namoro no quarto, pois a mãe de Viviane permitia, porque era melhor assim do que na rua. O calor do relacionamento foi crescendo e crescendo. O bombardeio do sexismo por todos os lados – da propaganda de jeans aos filmes de aventura, da revista de curiosidades aos portais de acesso à internet – e o Viviane, que gostava demais da companhia de Albertinho, o primeiro a lhe dar uma atenção integral, cedeu aos instintos do garoto. E, uma noite, depois de uma festinha na casa da amiga da Viviane, os dois transaram no cantinho do playground do prédio onde ela morava. Foi algo sem glamour, nem beleza. Foi sem jeito e sem conforto. E foi sem cuidado porque ambos, felizmente, eram fiéis ao namoro, embora um não pudesse ter a certeza da firmeza do outro. E foi sem preservativo, também, porque eles achavam que a primeira transa não poderia ser como “chupar bala com papel”.

Depois da primeira, veio a segunda, na casa de Albertinho, no final de semana seguinte, quando ficaram sozinhos, porque os pais precisavam fazer “sei-lá-o-quê” a tarde inteira. O irmão, na faculdade, fazia trabalho com os amigos. Foi bom, confortável e “maravilhoso”, conforme contou Viviane em seu blog naquela mesma noite.

Seu corpo de adolescente se transformou quando ela começou a transar e a mãe nem percebeu. Nem um ano depois, estoura a bomba: Viviane estava grávida. Albertinho estava desesperado, não por causa da Viviane, mas porque não queria ser responsabilizado por “aquilo”. Os pais dele diziam que a culpa era dela. E o comentarista de futebol amador e mau pago, o pai de Viviane, deu seu “show” de macho ferido e apontou o dedo para o nariz da quase coitada mãe da menina. Essa, num dilema supremo, recebeu as mais diversas indicações das amigas:

- “Dá para ela a pílula do dia seguinte”, disse a mal-informada que não acreditava em aborto.

- “Encomenda uma garrafada”,  disse a faxineira do escritório.

- “Leva prá uma clínica de um médico amigo meu para resolver”, disse a amiga que era uma abortista não declarada

- “Dá uma surra nela, que ela bem merece”, disse sua chefe.

- “Vai lá. Beija sua filha, Conversa com ela e ame-a como nunca”, disse a menina da recepção, uma garota ligada à juventude católica.

Pela primeira vez, depois de muitos anos, a mãe resolveu fazer a única coisa certa: rezar e olhar para a filha como mãe. Fez as pazes com Deus, que andava muito fora de sua vida. Sentou-se para conversar com sua filha, como deveria ter feito quando ela tinha apenas dois ou três aninhos. Deu a ela toda a atenção que precisava. Amou-a profundamente.

Viviane então teve sua filhinha, Angélica. Albertinho desapareceu da vida dela, porque os pais resolveram mandá-lo estudar longe. O pai ausente baba com a netinha. E a mãe ajuda Viviane a reconstruir uma vida que ainda nem tinha sido totalmente levantada.

E se você, que está lendo esse conto, pensa que isso só acontece com as famílias que têm recursos ou uma boa posição social, olhe à sua volta e perceba que, ainda que não tenhamos dinheiro ou status, vivemos a mesma condição social de Viviane e seus pais. A coisa pode acontecer no playground ou atrás do muro da escola. Pode acontecer, e com certeza acontece, dentro de muitas casas, pois, independente da condição social, os pais estão esquecendo-se da sua primeira e mais importante função: a de criarem seus filhos. E não é só uma condição de fé ou crença religiosa, mas uma questão de respeito pela ordem natural da vida. A maioria dos animais selvagens acompanha seus filhotes até que eles estejam preparados para viverem sozinhos. Porém, nossa sociedade selvagem não permite tal racionalidade por considerá-la irracional para os padrões competitivos e consumistas implantados dentro das famílias.

Hoje, a mãe de Viviane não trabalha mais. O pai desdobra-se sozinho reclamando incansavelmente da burrada da filha que o colocou ali. Pensam em separar-se. Mas uma coisa é certa: Angélica não tem culpa de nada do que aconteceu, do que está acontecendo e do que ainda acontecerá.

 

 Este texto é de minha autoria, André Luís Kawahala. Qualquer pessoa ou fato que coincidam com algum acontecimento real terá sido mera coincidência. O texto pode ser divulgado, utilizado em outros blogs, sites, etc. e citado em outros artigos, desde que seja feita a devida menção da autoria e do endereço de publicação. Obrigado.

Copyright © 2010 andrekaw.com All rights reserved. Theme by Laptop Geek.